Legenda
Eu sou Simone Fernandes Mathias, nasci numa tarde ensolarada de julho 1974 na cidade de Pelotas-RS, sou a filha primogênita de Miriam Helem e Francisco de Paulo, tenho seis irmãos. Sou mãe de Açucena e André Luís, e vó da Livia. Sou mulher negra, pesquisadora, Bacharel e Mestra em Antropologia Social e Cultural, pela UFPel. Realizei meu mestrado pelas ações afirmativas com muito orgulho e agora estou doutoranda em Antropologia. O sonho de cursar a universidade vinha de muito tempo. Em 2014 entro para a graduação: sempre digo que a Antropologia me escolheu. No início do curso, me deparei com uma realidade conflitante, pois éramos só oito negros, os semestres avançaram, e alguns já não vieram mais. Pelos corredores do ICH, conheci mulheres trabalhadoras domésticas, cozinheiras, vendedoras, artesãs, doceiras e tantas outras funções, com os rostos cansados de uma jornada de trabalho, mas na luta para conquistar seu espaço. Abrimos mão de muita coisa para concluir esse sonho. Nessa caminhada acadêmica, um mundo foi se descortinando, lugares, pessoas, trajetórias, oralidades e contextos. Sou bisneta paterna de benzedeira, aprendi desde cedo a importância da benção, das ervas, dos chás. Pensando nesses saberes e sabendo que as raízes nos chamam, dediquei meu TCC, aos queridos pretos(as) velhos(as). Em um momento que temos visto a queima e a depredação de espaços religiosos, só reafirma o quanto é preciso estar na luta de resistência, atentando para a particularidade de uma cultura passada pela oralidade e que por milhares de anos se mantêm viva. Seguindo essas pegadas, chego à comunidade do Passo dos Negros, local de uma historicidade negra potente, morada de humanos e não humanos, oralidade contada debaixo das figueiras centenárias. Lugar onde muitos desembarcaram, sem saber seu destino, mas que aqui firmaram suas raízes, esses frutos, hoje somos nós. E nesse leque de oportunidades e desafios que me instigam a buscar mais saberes, onde é preciso estar aberta para conhecer o novo e se surpreender com o velho.
“SER MULHER NEGRA: O meu olhar não será igual com passar do tempo, pois estou em constante movimento.”
Créditos texto e foto/reprodução: Simone Fernandes Mathias