
O Grupo de Trabalho “Diálogos patrimoniais, arquivos vivos e mapeamento participativo: choro e outros patrimônios musicais”, proposto pelo Grupo de Pesquisa Choro Patrimônio Cultural, tem como objetivo discutir, em perspectiva crítica e interdisciplinar, as relações entre patrimônio cultural imaterial, práticas musicais e metodologias participativas.
A proposta tem como referência central o processo de patrimonialização do choro e a experiência da Base de Dados Choro Patrimônio, compreendida como um espaço de articulação entre pesquisa, memória, acervos, práticas musicais e participação social.
O GT busca fortalecer o diálogo entre universidades, IPHAN, grupos de choro e de outras expressões musicais, coletivos culturais, artistas, detentoras/es e demais agentes envolvidos na salvaguarda colaborativa de patrimônios culturais. Em sua programação, o grupo propõe aproximar pesquisas em desenvolvimento, experiências de campo e saberes locais, articulando os debates sobre patrimônio cultural ao Encontro de Saberes (Figueiredo e Vianna, 2020; Carvalho e Albernaz, 2022).
Esta primeira curadoria que apresentamos na base busca demonstrar as possibilidades de utilização deste espaço, demonstrando a pluralidade de expressões musicais de Pernambuco e da Região Nordeste, bem como a diversidade étnico-racial e de gênero na construção do conhecimento sobre o choro e outros patrimônios culturais.
Programação do GT
GT ANPPOM “Diálogos patrimoniais, arquivos vivos e mapeamento participativo: choro e outros patrimônios musicais”
Terça a sexta-feira: 15/09 a 18/09 às 14h
- 15/09 “Patrimônios”: Climério Santos (Associação Respeita Januário) • Naara Santos (Associação Respeita Januário/Paço do Frevo) • Wagner Staden (Instituto “Isto é Choro!”) • equipe de pesquisa da Base Choro Patrimônio.
- 16/09 “Performance e educação”: Bozó 7 cordas • Maíra Macêdo • Moema Macêdo (Conservatório pernambucano de música / Centro de educação musical de olinda) • Lúcia Campos (UFMG) • Pedro Aragão (UNIRIO) • Rafael Velloso (UFPEL)
- 17/09 “Acervos”: Marco César (IFPE) • João Eduardo Moreira (PPGMUS – UnB) • Lucas Guerra (Conservatório Pernambucano de música)
- 18/09 Apresentação dos resultados do GT seguida por uma roda de choro com participantes e convidados
A programação do GT dialoga com três dimensões fundamentais da salvaguarda do choro em Pernambuco: os processos de ensino, os acervos documentais e sonoros, e os espaços vivos de performance. Esses eixos articulam práticas pedagógicas, memórias musicais, trajetórias de artistas, rodas de choro e coleções que ajudam a compreender a presença histórica e contemporânea do gênero na região.
Esta seção reúne experiências de ensino do choro em Pernambuco, destacando práticas pedagógicas coletivas, processos de transmissão musical e espaços de aprendizagem vinculados à salvaguarda do patrimônio musical.
A Prática de Choro é uma disciplina semestral que integra a grade curricular do Curso Técnico em Instrumento e do Curso Livre em Instrumento do Conservatório Pernambucano de Música. Ministrada semanalmente, em encontros presenciais de 40 minutos, a disciplina reúne estudantes em torno de um repertório de choro sugerido pelas professoras e pelos próprios alunos.
Nas primeiras aulas de cada período, todas e todos realizam a leitura e a prática coletiva do repertório. À medida que as afinidades e facilidades musicais são percebidas, as professoras indicam a formação de grupos menores, que passam a trabalhar cada música com mais detalhes. O processo semestral culmina em uma audição geral, realizada ao final do período.
As professoras Maíra e Moema são responsáveis, respectivamente, pelo ensino de cavaquinho e bandolim no CPM. Por isso, há predominância de estudantes desses instrumentos na prática, além da participação de alunos de cavaquinho de Bozó 7 Cordas. De modo geral, a disciplina reúne principalmente estudantes de cordas dedilhadas, como bandolim, cavaquinho, violão de seis cordas e violão de sete cordas. Também é frequente a presença de cantoras/es, além de alunas/os de pandeiro, convidadas/os a contribuir com a base percussiva.
No formato atual, a disciplina acontece há três anos e é ministrada pelas professoras Maíra e Moema.
A Prática de Choro no Centro de Educação Musical de Olinda – Prática de Choro no CEMO – surgiu por iniciativa da professora Maíra Macêdo Moreira, a partir de uma proposta apresentada à direção da instituição. O objetivo era ampliar sua carga horária com uma atividade que não se restringisse às aulas individuais de cavaquinho, abrindo espaço para uma prática coletiva voltada a estudantes de diferentes instrumentos interessados no estudo do choro.
No início dos encontros, Maíra costumava levar um repertório previamente definido. A intenção era compreender as possibilidades de troca musical de cada estudante, uma vez que a turma não era formada apenas por alunas/os de cavaquinho já acompanhadas/os pela professora. Em um primeiro momento, a professora realizava leituras à primeira vista com os grupos, observando a compreensão da divisão rítmica, a fluidez da leitura musical e as condições técnicas de cada instrumentista.
A mesma abordagem era utilizada para perceber a desenvoltura harmônica das/os estudantes, incluindo montagem de acordes, exploração de diferentes posições e condução dos baixos. A partir desse processo de conhecimento e entrosamento, Maíra Macêdo podia trabalhar de forma mais segura e direcionada, escolhendo um repertório possível para cada grupo.
Quanto à metodologia, a professora ressalta que colocava todas e todos para tocar em conjunto, independentemente do nível individual de desenvoltura. Estudantes em fase inicial de aprendizado recebiam atenção mais cuidadosa. O objetivo era fazer com que cada aluna/o compreendesse a Prática como um espaço democrático, onde fosse possível ensinar, aprender, experimentar e se sentir confortável.
Esta seção apresenta acervos sonoros, documentais e pessoais que contribuem para a preservação da memória do choro em Pernambuco e no Nordeste. São coleções que reúnem gravações, partituras, discos, fitas, documentos e registros de trajetórias musicais fundamentais para a história do gênero.
O Acervo Sonoro da Fundação Joaquim Nabuco é a maior coleção fonográfica do Nordeste, e uma das maiores do Brasil. O pioneiro na organização da fonoteca foi o pesquisador Renato Phaelante, que coordenou a Fonoteca e a Diretoria de Documentação da Fundaj de 1981 até 2012, ano de sua aposentadoria.
“Na época, ele [Renato Phaelante] mantinha a coleção apenas com arquivos de gravações de seminários e congressos da casa. Com experiência em rádio e apurada sensibilidade para música, começou a organizar o acervo. O trabalho contribuiu para que, posteriormente, os áudios fossem reconhecidos como documentos” (FUNDAJ, 2017).
“O pesquisador começou a comandar o programa Memória de Nossa Gente na Rádio Universitária em 1982, quando usou a plataforma como um meio para arrecadar tudo que podia sobre rádios e, a partir disso, nasceu a ideia de criar a fonoteca na Fundação. A luta para conquistar o título de documento para os arquivos veio, segundo ele, ‘a partir do crescimento do acervo e da credibilidade da instituição’, para então se transformar no que hoje é, baseado no conhecimento e na experiência do pesquisador, ‘o maior acervo fonográfico do Nordeste e um dos maiores do país’” (Didier, 2018)
Apesar de não ser um arquivo voltado exclusivamente voltado ao repertório do choro, trata-se de um arquivo importante para a compreensão da história do gênero na região nordeste, por conter registros históricos de compositores locais que também se dedicaram ao choro, como Capiba e Nelson Ferreira, dentre muitos outros.
O Acervo particular do bandolinista, professor e pesquisador pernambucano Marco César, grande referência do choro na região. A coleção é composta por centenas de partituras de compositores de todo o país, discos (LP – long play), CDs e cerca de 700 fitas cassetes. O acervo foi sendo formado em mais de 40 anos, no decorrer da trajetória de Marco César, como estudante e profissional da música. Alguns itens também foram herdados da coleção do pai do bandolinista, Manoel Xavier de Brito, o Tozinho. Entre esses materiais herdados de seu pai, estão as fitas cassetes, que são em sua maioria cópias do material fonográfico registrado em fitas de rolo. Tanto por sua variedade de informações e documentos quanto por seu estado de conservação é um acervo dos mais importantes para a história do choro pernambucano. Há no acervo produções de nomes importantes para a história do choro como Canhoto da Paraíba, Henrique Annes, Jacaré, Avena de Castro, Bozó Sete Cordas, Conjunto Pernambucano de Choro e muitos outros. E ainda, a coleção de Tozinho, pai de Marco César, com registro de rodas de choros e trocas de arquivos musicais entre os chorões mais antigos. (essa coleção precisa ainda ser catalogada com mais detalhes, segundo o bandolinista)
Acervo do violonista, professor e compositor pernambucano Bozó 7 Cordas, um dos instrumentistas de referência para o choro em Pernambuco e no Brasil. Seu acervo conta com gravações amadoras de diversos momentos de sua carreira como músico e professor na cidade de Recife. São cerca de 50 partituras de suas composições; gravações de algumas rodas de choro com pessoas em locais importantes da cena chorona recifense; gravação de um show realizado juntamente com a cantora Dalva Torres com o grupo Pingo de Ouro (Nestor Cavaquinho, Bozó, Lula do Pandeiro). Há também registro fonográfico de audições dos alunos de Bozó no Conservatório Pernambucano de Música.
O acervo do Regional do Canhoto, tal como é conhecido, foi organizado pelo pesquisador e colecionador Armando Marques e compõe-se, basicamente, de materiais vinculados à produção do referido regional, como grupo exclusivo ou como acompanhador de grandes intérpretes do choro e da música popular brasileira. Formado por Canhoto do Cavaquinho (Waldiro Tramontano), Dino 7 Cordas (Horondino José da Silva), Meira (Jayme Florence), Gilson de Freitas no pandeiro, Altamiro Carrilho e Orlando Silveira, o Regional do Canhoto (cavaquinista) tornou-se um dos mais relevantes conjuntos de choro de seu tempo, tendo gravado com importantes instrumentistas e cantores, a exemplo de Vicente Celestino, Orlando Silva, Luiz Gonzaga, Marinês, Jackson do Pandeiro, Waldir Azevedo, Jacob do Bandolim, Jair Rodrigues, Cartola, Paulinho da Viola, Élton Medeiros, Luis Americano e Beth Carvalho, por exemplo, bem como produções do próprio Regional.
Esta seção reúne rodas, festivais e espaços de sociabilidade musical que ajudam a compreender o choro como prática viva. Mais do que eventos ou lugares de apresentação, esses espaços constituem ambientes de transmissão de saberes, encontro entre gerações, circulação de repertórios e construção coletiva da memória musical.
A Roda Segunda dos Lapas surgiu em 2017, idealizada por Bozó Sete Cordas (Ewerton Brandão Sarmento) com o intuito de reunir músicos e compositores para estimular o encontro e a troca. Pelo simples prazer de tocar juntos. A Roda também é criação de Naara Santos (produtora cultural, jornalista, cantora). Os dois são nomes importantes para o choro pernambucano e nacional.
“O ritual da Roda de Choro acontece porque existe a música; são indissolúveis contexto e música. São fatores importantes as pessoas presentes e as relações de troca que os músicos estabelecem entre si. É nesse entendimento que a Segunda dos Lapas surge no cenário musical do Choro em Pernambuco. Um espaço que agrega, que soma conhecimento e onde se compartilham histórias e saberes. A Segunda dos Lapas não difere de outras rodas de choro, traz consigo o caráter do encontro, do conhecimento, da troca. Como toda roda é neste espaço tão simbólico que os músicos se encontram na informalidade e se reconhecem naquilo que tocam, que executam”. (Naara Santos, 2021)
A Roda de Choro Infinito surgiu a partir da ideia de Wilson Soares e Paulo Tavares em 2012 no bar Acalanto, no Bairro da Encruzilhada. Por volta de fevereiro de 2013, passou a ser realizada todas as segundas, durante a noite, em Olinda, no Espaço Cultural Atelier da Barbearia. Desde 2012 a Roda do Infinito está em atividade, passando por adaptações de agenda e de espaços. Em 2018 veio para as Graças, no restaurante A Fazendinha onde era realizada até o início da pandemia, todas as terças, durante a noite, com uma média de 15 a 20 músicos participantes. A Roda do Infinito não tem grupo fixo, não atua com fins comerciais e acontece, na maioria das vezes, no formato acústico. Alguns nomes importantes para o choro recifense aparecem com frequência, como Lucas Guerra (uma das lideranças de organização da Roda) e Isaque Santos, violinista. Sendo assim, por tempo de atuação contínua, atualmente é a roda de choro mais antiga ainda em atividade em Recife/ Olinda.
“É uma roda bastante democrática onde participam desde músicos consagrados como Bozó até iniciantes no choro” (Lucas Guerra, 2021).
“O Festival do Choro João Pernambuco surgiu da vontade dos músicos instrumentistas pernambucanos de celebrar o Choro, um gênero musical tão genuinamente brasileiro. Foi batizado com o nome de um dos mais representativos compositores de Choro – João Pernambuco, que carrega no próprio nome o nome do seu estado. Ao lado de outros grandes músicos, como: Rossini Ferreira, Luperce Miranda, Quincas Laranjeiras, entre tantos, colocou Pernambuco como um dos importantes centros de efervescência do Choro no Brasil.
A 1ª edição do Festival do Choro João Pernambuco, foi realizada no ano de 2016, nos dias 19 e 20/05, no Pátio de São Pedro, Recife/PE, com a participação dos mais representativos músicos e musicistas de Pernambuco, tendo como homenageado o mestre Chocho, chorão de 92 anos de idade e considerado o chorão mais idoso do Brasil em atividade. O Festival é uma produção criada e gerenciada por Wagner Staden, reconhecido produtor cultural no estado de Pernambuco, juntamente com o Coletivo Isto é Choro!, que é liderado por Wagner e pelos artistas Walmir Chagas e Betto do Bandolim.
O Retalhos Bar e Restaurante, criado por Edson Mota e Ana Paula de Oliveira, foi um importante lugar de encontros musicais no centro da cidade do Recife. Inaugurado no ano de 2010, promoveu até o ano de 2018 muitos encontros memoráveis entre músicos chorões pernambucanos e de todo o Brasil. O Retalhos também era ponto de encontro de outros gêneros musicais importantes para Pernambuco, como o frevo. Bozó 7 Cordas conta que o estabelecimento no início de sua existência era um espaço comercial de self-service que de vez em quando sediava algumas festas. Numa dessas, Bozó foi convidado pela cantora Sônia Aguiar para formar um duo. Ao chegar ao espaço, Bozó gostou muito e propôs para a dona, Ana Paula, que o Retalhos se abrisse para receber encontros musicais. No espaço, aconteciam apresentações de grupos fixos e rodas de choro abertas aos músicos que quisessem participar. A depender da dinâmica musical e do número de músicos participantes, as apresentações aconteciam de forma acústica ou amplificada.
Entre os músicos que passaram e formaram a história do Retalhos Bar e Restaurante, Bozó 7 Cordas, Betto do Bandolim, Marco César, Moema Macêdo, Maíra Macêdo, Rafael Marques, João Paulo Albertim, Alexandre Rodrigues, Nuca Sarmento, Júnior Teles, Fred Didier, Naara Santos etc.
Participe do mapeamento
O GT Choro Patrimônio é também um espaço de escuta, colaboração e construção coletiva. Convidamos pesquisadoras/es, musicistas, detentoras/es, estudantes, instituições e demais pessoas interessadas a contribuir com informações, acervos, registros, memórias e indicações de práticas ligadas ao choro e a outros patrimônios musicais.
Que memórias do choro em Pernambuco ainda precisam ser registradas? Quais rodas, acervos, personagens e espaços devem integrar este mapeamento? Como os processos de ensino, performance e documentação podem fortalecer a salvaguarda do choro como patrimônio cultural?
A Base de Dados Choro Patrimônio propõe reunir essas experiências em um ambiente vivo de pesquisa, memória e participação social, conectando acervos, trajetórias, práticas musicais e saberes compartilhados.
