{"id":1563,"date":"2023-03-04T11:40:02","date_gmt":"2023-03-04T14:40:02","guid":{"rendered":"https:\/\/acervosvirtuais.ufpel.edu.br\/octaviodutra\/?page_id=1563"},"modified":"2023-03-04T15:59:52","modified_gmt":"2023-03-04T18:59:52","slug":"__trashed","status":"publish","type":"page","link":"https:\/\/acervosvirtuais.ufpel.edu.br\/octaviodutra\/","title":{"rendered":"Descri\u00e7\u00e3o do Acervo"},"content":{"rendered":"\n<figure class=\"wp-block-image aligncenter size-full is-resized is-style-default\"><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/acervosvirtuais.ufpel.edu.br\/octaviodutra\/wp-content\/uploads\/sites\/19\/2023\/03\/cropped-533671_2513233767102_2037226660_n.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-1523\" width=\"393\" srcset=\"https:\/\/acervosvirtuais.ufpel.edu.br\/octaviodutra\/wp-content\/uploads\/sites\/19\/2023\/03\/cropped-533671_2513233767102_2037226660_n.jpg 213w, https:\/\/acervosvirtuais.ufpel.edu.br\/octaviodutra\/wp-content\/uploads\/sites\/19\/2023\/03\/cropped-533671_2513233767102_2037226660_n-207x300.jpg 207w, https:\/\/acervosvirtuais.ufpel.edu.br\/octaviodutra\/wp-content\/uploads\/sites\/19\/2023\/03\/cropped-533671_2513233767102_2037226660_n-205x297.jpg 205w\" sizes=\"(max-width: 213px) 100vw, 213px\" \/><\/figure>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-center has-darkturquoise-color has-text-color has-huge-font-size\"><strong>Acervo Oct\u00e1vio Dutra (1884-1937):&nbsp;um manancial do&nbsp;<em>choro<\/em>&nbsp;no Sul do Brasil<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-center has-darkturquoise-color has-text-color has-huge-font-size\"><strong><em>Por M\u00e1rcio de Souza \u2013 Prof. do Centro de Artes da UFPel \u2013 marcio_souza@ufpel.edu.br<\/em><\/strong><\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-pullquote alignfull has-text-align-left has-darkturquoise-color has-text-color has-large-font-size\"><blockquote><p><strong>O<\/strong>ct\u00e1vio Dutra nasceu na cidade de Porto Alegre (RS) em 1884, local onde residiu e atuou durante toda a sua vida art\u00edstica. Iniciou sua trajet\u00f3ria musical como violonista e bandolinista em serenatas e saraus urbanos e comp\u00f4s suas primeiras polcas e valsas no ano de 1900. Posteriormente, adquiriu forma\u00e7\u00e3o musical te\u00f3rica no Conservat\u00f3rio do Instituto de Belas Artes (1909-11), vindo a atuar exclusivamente na m\u00fasica por mais de 30 anos em diversos espa\u00e7os culturais e sociais da cidade. Nesse per\u00edodo, mantinha-se financeiramente atrav\u00e9s de cursos de viol\u00e3o e bandolim, reg\u00eancia, arranjos e composi\u00e7\u00f5es diversas e, da participa\u00e7\u00e3o em conjuntos instrumentais.<br><br>Mesmo com o passar dos anos, ap\u00f3s sua morte em 1937, o acervo de partituras de Oct\u00e1vio Dutra foi zelosamente guardado por sua esposa Diamantina, depois pela filha Dioctavina Dutra, que tamb\u00e9m tocava viol\u00e3o, e por \u00faltimo pela sobrinha-neta S\u00f4nia Paes Porto, uma guardi\u00e3 do acervo do tio-av\u00f4 por longos anos. Em meados dos anos de 1960 e 70, recebeu refor\u00e7os com doa\u00e7\u00f5es de partituras de ex-alunos que integraram a Orquestra Brasileira Oct\u00e1vio Dutra, organizada por seu sobrinho Voltaire Dutra Paes, at\u00e9 1976. Em 1984, o pesquisador Paix\u00e3o C\u00f4rtes revelou novas informa\u00e7\u00f5es acerca da sua biografia e das antigas grava\u00e7\u00f5es com a publica\u00e7\u00e3o do livro \u201cAspectos da m\u00fasica e fonografia ga\u00fachas\u201d.<br><br>Somente em 1985, ap\u00f3s ampla investida dos m\u00fasicos Hardy Vedana, Carlos Branco e Arthur de Faria (1995) para descobrir as origens da hist\u00f3ria da m\u00fasica de Porto Alegre, o material foi localizado. Foi um fato intrigante, visto que nesse momento ainda se ignorasse a exist\u00eancia e a localiza\u00e7\u00e3o deste acervo. Em posse do material, o pesquisador Hardy Vedana escreveu a biografia \u201cOct\u00e1vio Dutra na hist\u00f3ria da m\u00fasica de Porto Alegre\u201d (2000). Em 2009, o acervo foi cedido para a empresa Guaruj\u00e1 Produ\u00e7\u00f5es para a realiza\u00e7\u00e3o do document\u00e1rio \u201cEspia s\u00f3\u2026\u201d (2012). Em 2013, com a contempla\u00e7\u00e3o do projeto Rumos \u2013 Ita\u00fa Cultural, sob minha responsabilidade, o acervo foi transferido para o Centro de Documenta\u00e7\u00e3o Musical do Conservat\u00f3rio de M\u00fasica da UFPel para a devida higieniza\u00e7\u00e3o, restaura\u00e7\u00e3o, acondicionamento e digitaliza\u00e7\u00e3o.<br><br>Historicamente, o acervo cont\u00e9m um manancial de documentos e fontes relacionadas \u00e0 trajet\u00f3ria musical e experi\u00eancia profissional de Oct\u00e1vio Dutra entre os anos de 1900 a 1937. Nesse espa\u00e7o temporal, pode-se mapear e compreender a sua atua\u00e7\u00e3o atrav\u00e9s de documentos que o situam desde o per\u00edodo autodidata (quando ainda n\u00e3o sabia teoria musical); ao per\u00edodo de estudos no Conservat\u00f3rio de M\u00fasica; nos contextos discogr\u00e1fico, carnavalesco e radiof\u00f4nico. Pelas tem\u00e1ticas de sua obra tamb\u00e9m pode-se compreender, em parte, a circularidade e as transforma\u00e7\u00f5es da m\u00fasica popular brasileira no Sul do Brasil. Muitas de suas composi\u00e7\u00f5es contextualizaram representa\u00e7\u00f5es do espa\u00e7o social da cidade, da cultura e dos costumes da sociedade de sua \u00e9poca, bem como acompanharam o advento, o uso e o desenvolvimento de novas tecnologias, como o cinema, o disco e o r\u00e1dio.<br><br>O acervo est\u00e1 constitu\u00eddo em sua grande maioria por partituras instrumentais, versos e revistas musicais autorais. A partir de uma classifica\u00e7\u00e3o preliminar, pode-se encontrar m\u00fasicas em manuscrito aut\u00f3grafo, partituras em manuscrito (c\u00f3pia n\u00e3o aut\u00f3grafo), partituras impressas, manuscritos de arranjos e orquestra\u00e7\u00f5es, diversos \u00e1lbuns encadernados com composi\u00e7\u00f5es em manuscrito aut\u00f3grafo ou c\u00f3pia. Outra parte cont\u00e9m letras avulsas em manuscrito aut\u00f3grafo, letras avulsas impressas e revistas musicais em manuscrito aut\u00f3grafo ou c\u00f3pia. A terceira parte contempla os assuntos gerais, contendo recortes diversos de jornais da \u00e9poca (not\u00edcias, cr\u00f4nicas, necrol\u00f3gio), anota\u00e7\u00f5es diversas em manuscrito aut\u00f3grafo, fotos e outras imagens. A diversidade do material encontrado no acervo Oct\u00e1vio Dutra foi disponibilizada a partir das seis cole\u00e7\u00f5es que comp\u00f5e o acervo:<\/p><\/blockquote><\/figure>\n\n\n\n<div class=\"wp-block-group is-layout-constrained wp-block-group-is-layout-constrained\">\n<h2 class=\"has-darkturquoise-color has-text-color has-huge-font-size wp-block-heading\"><strong>Cadernos de letras e versos<\/strong><\/h2>\n\n\n\n<h2 class=\"has-darkturquoise-color has-text-color has-huge-font-size wp-block-heading\"><strong>Cadernos de Partituras&nbsp;<\/strong><\/h2>\n\n\n\n<h2 class=\"has-darkturquoise-color has-text-color has-huge-font-size wp-block-heading\"><strong>Partituras de Oct\u00e1vio Dutra<\/strong><\/h2>\n\n\n\n<h1 class=\"has-text-align-left has-darkturquoise-color has-text-color has-huge-font-size wp-block-heading\"><strong>Revistas Musicais<\/strong><\/h1>\n\n\n\n<h2 class=\"has-darkturquoise-color has-text-color has-huge-font-size wp-block-heading\"><strong>Arranjos<\/strong>&nbsp;e Orquestra\u00e7\u00f5es<\/h2>\n\n\n\n<h2 class=\"has-darkturquoise-color has-text-color has-huge-font-size wp-block-heading\"><strong>Reclames e Programas<\/strong>&nbsp;de concerto da OFIPPA<\/h2>\n<\/div>\n\n\n\n<p><\/p>\n\n\n\n<p><\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-pullquote alignfull has-text-align-left has-darkturquoise-color has-text-color has-large-font-size\"><blockquote><p>Ao manusear o acervo pode-se contextualizar uma pr\u00e1tica de \u00e9poca utilizada por Oct\u00e1vio Dutra: a compila\u00e7\u00e3o de cadernos manuscritos que eram utilizados para ensaio nos grupos de choro, cord\u00f5es de carnaval, orquestras de teatro de revista, orquestras radiof\u00f4nicas e material did\u00e1tico, al\u00e9m de um raro \u00e1lbum de recortes de jornal, possivelmente organizado pela filha Dioctavina.&nbsp;<br>Desse montante, desperta interesse os cadernos de choros e valsas, visto que, al\u00e9m das partituras, cont\u00e9m o nome do grupo musical de origem (Terror dos Fac\u00f5es, Batutas, Vampiros, Guarda Velha, etc.), \u00edndice, indica\u00e7\u00e3o de instrumentos (flauta, violino, sax, etc.) e os nomes ou apelidos dos integrantes, como Lombriga, Lua Cheia, Pato, Periquito, etc. Pela \u00e9poca que foram redigidos, pelo formato e conte\u00fado n\u00e3o se tem d\u00favida da raridade deste material, visto que tal pr\u00e1tica nos remete aos antigos cadernos de choro guardados por Jacob do Bandolim, por exemplo.<br><br><strong>Abaixo a lista dos \u00e1lbuns e cadernos pertencentes ao Acervo Oct\u00e1vio Dutra<\/strong>:<br><br>NOT\u00cdCIAS DE OCT\u00c1VIO DUTRA. \u00c1lbum compilado por Dioctavina Dutra. Cr\u00edticas, cr\u00f4nicas e notas de arte de diversos jornais. Porto Alegre, s.d. [manuscrito].<br>\u00c1LBUM (CARNAVAL DE 1928). Bloco Passa fome e anda gordo. M\u00fasicas de Oct\u00e1vio Dutra. \u00c1lbum compilado pelo autor contendo letras e m\u00fasicas. Porto Alegre, s.d. [manuscrito].&nbsp;<br>\u00c1LBUM DE MODINHAS, lundus, can\u00e7onetas, fados, mon\u00f3logos, etc, etc, \u2013 de diversos autores \u2013 repert\u00f3rio de Oct\u00e1vio Dutra<em>.&nbsp;<\/em>(n\u00ba 01). Porto Alegre, s.d. [manuscrito].<br>C. C. OS BATUTAS. M\u00fasicas de Oct\u00e1vio Dutra. \u00c1lbum compilado pelo autor contendo letras e m\u00fasicas. Porto Alegre, s.d. [manuscrito].&nbsp;<br>CADERNO N\u00ba 01. Repert\u00f3rio de Diamantina Dutra. Porto Alegre, s.d.<em>&nbsp;<\/em>\u00c1lbum compilado com repert\u00f3rio de diversos autores. Porto Alegre, s.d. [manuscrito].<br>CAN\u00c7\u00d5ES. Versos de diversos autores. Repert\u00f3rio de Oct\u00e1vio Dutra. \u00c1lbum compilado pelo autor contendo trinta e oito m\u00fasicas. Porto Alegre, s.d. [manuscrito].&nbsp;<br>CHOROS, POLCAS E TANGOS. Caderno n\u00ba 02.<em>&nbsp;<\/em>\u00c1lbum compilado pelo autor contendo trinta e oito m\u00fasicas. Porto Alegre, 1922. [manuscrito].<br>GUARDA VELHA N\u00ba 01. Repert\u00f3rio de Oct\u00e1vio Dutra. \u00c1lbum compilado pelo autor contendo 32 m\u00fasicas. Porto Alegre, s.d. [manuscrito].&nbsp;<br>VALSAS DE OCT\u00c1VIO DUTRA<strong>.<em>&nbsp;<\/em><\/strong>\u00c1lbum compilado pelo autor contendo trinta e uma valsas. Porto Alegre, s.d. [manuscrito].&nbsp;<br>VALSAS DE OCT\u00c1VIO DUTRA. Repert\u00f3rio do Terror dos fac\u00f5es. \u00c1lbum compilado pelo autor contendo trinta e oito valsas. Porto Alegre, s.d. [manuscrito].&nbsp;<br>VERSOS (CAN\u00c7\u00d5ES) de Oct\u00e1vio Dutra. Modinhas, lundus, can\u00e7onetas, fados, mon\u00f3logos, etc, etc. De diversos autores. N\u00ba 01. Repert\u00f3rio de Oct\u00e1vio Dutra. \u00c1lbum compilado pelo autor contendo setenta e quatro m\u00fasicas. Porto Alegre, s.d. [manuscrito].&nbsp;<br>VERSOS (CAN\u00c7\u00d5ES) de Oct\u00e1vio Dutra. Mon\u00f3logos, modinhas, fados, romanzas, etc. Repert\u00f3rio de Oct\u00e1vio Dutra. \u00c1lbum compilado pelo autor contendo quarenta e oito m\u00fasicas. Porto Alegre, s.d. [manuscrito].&nbsp;<br><br><strong>O&nbsp;<em>choro<\/em>&nbsp;no Acervo Oct\u00e1vio Dutra<\/strong><br><br>No in\u00edcio da Primeira Rep\u00fablica os g\u00eaneros populares-eruditos praticados desde a segunda metade do s\u00e9culo XIX tornaram-se um problema de terminologia. Ao se analisar as tend\u00eancias musicais urbanas no tempo de Oct\u00e1vio Dutra, percebe-se um intenso di\u00e1logo musical entre os g\u00eaneros em voga. Nessa \u00e9poca, os m\u00fasicos j\u00e1 haviam mesclado antigos g\u00eaneros como o&nbsp;<br><em>lundu<\/em>&nbsp;e a&nbsp;<em>polca,<\/em>&nbsp;e a valsa serenata podia ser denominada e reconhecida como \u201cbrasileira\u201d.&nbsp;<br>Igualmente ao que ocorria no centro do pa\u00eds, percebe-se que Dutra empregou e conservou em seu repert\u00f3rio o tango brasileiro, o maxixe e o&nbsp;<em>choro<\/em>. No entanto, receberam denomina\u00e7\u00f5es variadas como tango-brasileiro, polca-tango, polca-choro ou simplesmente choro. Tamb\u00e9m foi influenciado pela m\u00fasica das&nbsp;<em>jazz-bands<\/em>&nbsp;americanas, visto o emprego de novos g\u00eaneros musicais e de instrumentos de metal nas forma\u00e7\u00f5es art\u00edsticas. Embora tenha levado a fama de bo\u00eamio e&nbsp;<em>chor\u00e3o<\/em>, acompanhou as tend\u00eancias musicais dos anos de 1920 e 1930, quando a marcha carnavalesca e o samba, ainda com ares de maxixe, passaram a integrar o \u201cmenu\u201d do seu repert\u00f3rio e das suas composi\u00e7\u00f5es. A partir da cria\u00e7\u00e3o da orquestra Guarda Velha nos anos de 1930, o compositor passou a sintetizar um panorama sonoro de todo o seu repert\u00f3rio.<br><br>Nesse sentido, semelhante aos grandes centros urbanos como o Rio de Janeiro e Salvador, ber\u00e7os do choro e do samba, pode-se constatar que a cidade de Porto Alegre, embora situada no extremo sul do pa\u00eds, tamb\u00e9m mantinha uma relativa sintonia na vanguarda dessa fus\u00e3o de g\u00eaneros como a polca e o tango, o maxixe e o samba. Inclusive no quesito arranjo, o grupo Terror dos Fac\u00f5es, a partir da escuta das grava\u00e7\u00f5es de \u00e9poca, apresenta uma pioneira tentativa de organiza\u00e7\u00e3o.<br>No repert\u00f3rio de Oct\u00e1vio Dutra pode-se encontrar uma boa quantidade de composi\u00e7\u00f5es que se enquadram historicamente no que se denominou como a \u201csegunda gera\u00e7\u00e3o\u201d de chor\u00f5es, o que se confirma com a escuta de alguns fonogramas em 78 r pm. Nessas grava\u00e7\u00f5es hist\u00f3ricas, diferentemente das primeiras polcas compostas por Dutra em torno de 1900, na polca&nbsp;<em>Olha o Poste<\/em>!, por exemplo,<em>&nbsp;<\/em>onde percebe-se a presen\u00e7a de uma interpreta\u00e7\u00e3o mais pr\u00f3xima do choro atrav\u00e9s da constru\u00e7\u00e3o mel\u00f3dica, do fraseado da flauta, da base de acompanhamento organizada com cavaquinho, bandolim e viol\u00e3o, bem como dos baixos t\u00edpicos do viol\u00e3o, que embora ainda sem os contrapontos, caracterizam os princ\u00edpios de um Regional de choro.<br><br>Nas grava\u00e7\u00f5es de 1913, o \u201cTerror dos fac\u00f5es\u201d estava formado por Arnaldo Dutra (cavaquinho), Creso de Barros (flauta), Hon\u00f3rio da Silva (viol\u00e3o), Jos\u00e9 Xavier Bastos \u201cCazuza\u201d (flauta) e Oct\u00e1vio Dutra (viol\u00e3o e bandolim). Era um grupo formado por familiares, colegas e disc\u00edpulos do compositor. Durante sua trajet\u00f3ria, o grupo manteve diversas forma\u00e7\u00f5es. De acordo com o folclorista Paix\u00e3o C\u00f4rtes, historicamente, o grupo foi oriundo do Trio do Choro e pertenceu \u00e0 chamada&nbsp;<em>Gera\u00e7\u00e3o Gramofone.<\/em>&nbsp;Como observa Hardy Vedana, nos anos de 1920, o&nbsp;<em>Terror dos fac\u00f5es<\/em>&nbsp;passaria a se chamar orquestra&nbsp;<em>Os Batutas<\/em>.&nbsp;&nbsp;<br><br>Em geral, grande parte da sua obra musical encontra-se contextualizada pela sonoridade dos antigos grupos de&nbsp;<em>choro<\/em>. No \u201chino de guerra\u201d do grupo&nbsp;<em>Terror dos fac\u00f5es<\/em>, a curiosa e h\u00edbrida polca-marcha intitulada \u201cSempre n\u00f3s\u2026\u201d, a primeira e a segunda partes, bastante virtuos\u00edsticas, soam genuinamente como uma polca-choro. No entanto, a terceira parte, subitamente mais mel\u00f3dica (e com letra jocosa) aproxima-se de uma marcha carnavalesca, visto que o grupo tamb\u00e9m participava ativamente do carnaval de rua porto-alegrense dos anos de 1910 e 1920.&nbsp;<br><br>A ideia de fus\u00e3o desses dois ritmos bin\u00e1rios e de reunir trechos instrumentais e vocais \u00e9 bastante peculiar na hist\u00f3ria da m\u00fasica brasileira e resultou numa mistura interessante: virtuosismo, ritmo vibrante, frases mel\u00f3dicas e tra\u00e7os humor\u00edsticos, o que de fato, parecia caracterizar o grupo de Oct\u00e1vio Dutra. O flautista Dante Santoro gravou \u201cSempre n\u00f3s\u201d junto com os&nbsp;<em>Trig\u00eameos Vocalistas<\/em>, fato que tornou-a conhecida nacionalmente atrav\u00e9s do disco e do r\u00e1dio a partir dos anos de 1940. Registra-se ainda uma edi\u00e7\u00e3o impressa para Acordeon, nos anos de 1950, pela editora paulista&nbsp;<em>A Melodia<\/em>.<br><br>Durante sua trajet\u00f3ria, Oct\u00e1vio Dutra escreveu tamb\u00e9m muitas homenagens musicais para amigos, colegas e artistas. \u201cMeu ci\u00fame\u2026\u201d \u00e9 um samba-can\u00e7\u00e3o (com letra) repleto de contrapontos em homenagem a Pixinguinha. Ambos se conheceram em Porto Alegre em 1927. Em 1935 comp\u00f4s uma polca-choro regionalizada intitulada \u201cSai da Frente! \u201d, quando do seu encontro com o violonista Garoto (An\u00edbal Augusto Sardinha) durante uma temporada art\u00edstica em Porto Alegre.<br>O g\u00eanero t<em>ango brasileiro<\/em>&nbsp;foi tamb\u00e9m muito empregado por Oct\u00e1vio Dutra em obras escritas para diversos instrumentos e forma\u00e7\u00f5es. No seu&nbsp;<em>Estudo do dedo polegar<\/em>, para viol\u00e3o solo, igualmente ao estilo da primeira parte de&nbsp;<em>Odeon<\/em>&nbsp;de Nazareth, a melodia encontra-se no baixo. No tango brasileiro&nbsp;<em>Terror dos Fac\u00f5es,<\/em>&nbsp;o ritmo sincopado oscila entre a melodia e baixo, fazendo diversas costuras. Foi escrita no final dos anos de 1910, mas, j\u00e1 soa como um aut\u00eantico choro, tanto na forma, no fraseado, na r\u00edtmica, quanto pelas modula\u00e7\u00f5es harm\u00f4nicas. Nesse sentido, junto com a polca-choro&nbsp;<em>M\u00e1goas do viol\u00e3o<\/em>, ambas representam o \u00e1pice das obras escritas por Oct\u00e1vio Dutra dentro do que se passou a denominar&nbsp;<em>choro<\/em>&nbsp;na m\u00fasica urbana brasileira da primeira metade do s\u00e9culo XX.&nbsp;&nbsp;<br>Enfim, o acervo Oct\u00e1vio Dutra cont\u00e9m quase uma centena de&nbsp;<em>choros<\/em>, num montante de mais de quatrocentas obras. A possibilidade de acesso ao acervo j\u00e1 \u00e9 uma realidade e novas pesquisas podem revelar ainda mais detalhes da produ\u00e7\u00e3o musical e da pr\u00e1tica social do choro no Sul do Brasil. Muitas quest\u00f5es acerca da sua obra, da trajet\u00f3ria e do campo de atua\u00e7\u00e3o ainda est\u00e3o por ser investigadas. As media\u00e7\u00f5es culturais que o compositor estabeleceu, o c\u00edrculo de artistas com os quais manteve contato e as parcerias composicionais tamb\u00e9m apontam para um grande potencial de pesquisas sobre o&nbsp;<em>choro<\/em>&nbsp;na primeira metade do s\u00e9c. XX.<br><strong>Refer\u00eancias:<\/strong><br>CORTES, Paix\u00e3o.&nbsp;<strong>Aspectos da m\u00fasica e fonografia ga\u00fachas<\/strong>. Porto Alegre: Edi\u00e7\u00e3o do autor, 1984.<br>FARIA, Arthur de.&nbsp;<strong>A m\u00fasica de Porto Alegre: as origens<\/strong>. Porto Alegre: SMC, 1995.<br>PAES, Pedro.&nbsp;<strong>Terror dos fac\u00f5es<\/strong>. In:&nbsp;<em>Mem\u00f3rias musicais<\/em>. Encarte CD. Rio de Janeiro: Sarapu\u00ed Produ\u00e7\u00f5es\/Petrobr\u00e1s, s.d<br>SOUZA, M\u00e1rcio de.&nbsp;<strong>M\u00e1goas do viol\u00e3o: media\u00e7\u00f5es culturais na m\u00fasica de Oct\u00e1vio Dutra (1900-1937).<\/strong>&nbsp;Porto Alegre. 2010. Tese de doutorado. PUCRS.<br>VEDANA, Hardy.&nbsp;<strong>Oct\u00e1vio Dutra na hist\u00f3ria da m\u00fasica de Porto Alegre<\/strong>. Porto Alegre, Fumproarte, 2000.<\/p><\/blockquote><\/figure>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Acervo Oct\u00e1vio Dutra (1884-1937):&nbsp;um manancial do&nbsp;choro&nbsp;no Sul do Brasil Por M\u00e1rcio de Souza \u2013 Prof. do Centro de Artes da UFPel \u2013 marcio_souza@ufpel.edu.br Oct\u00e1vio Dutra nasceu na cidade de Porto Alegre (RS) em 1884, local onde residiu e atuou durante toda a sua vida art\u00edstica. Iniciou sua trajet\u00f3ria musical como violonista e bandolinista em serenatas [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":29,"featured_media":0,"parent":0,"menu_order":0,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","template":"","meta":{"footnotes":""},"class_list":["post-1563","page","type-page","status-publish","hentry"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/acervosvirtuais.ufpel.edu.br\/octaviodutra\/wp-json\/wp\/v2\/pages\/1563","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/acervosvirtuais.ufpel.edu.br\/octaviodutra\/wp-json\/wp\/v2\/pages"}],"about":[{"href":"https:\/\/acervosvirtuais.ufpel.edu.br\/octaviodutra\/wp-json\/wp\/v2\/types\/page"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/acervosvirtuais.ufpel.edu.br\/octaviodutra\/wp-json\/wp\/v2\/users\/29"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/acervosvirtuais.ufpel.edu.br\/octaviodutra\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=1563"}],"version-history":[{"count":7,"href":"https:\/\/acervosvirtuais.ufpel.edu.br\/octaviodutra\/wp-json\/wp\/v2\/pages\/1563\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":1664,"href":"https:\/\/acervosvirtuais.ufpel.edu.br\/octaviodutra\/wp-json\/wp\/v2\/pages\/1563\/revisions\/1664"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/acervosvirtuais.ufpel.edu.br\/octaviodutra\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=1563"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}