
Data de nascimento: 18/01/1852
Data da morte: Não se sabe
Homem preto, nascido em Pelotas
Justo, filho da escravizada crioula Delfina, nasceu em 1852 na cidade de Pelotas, numa escravaria de propriedade de Amaro José de Ávila Silveira. Ambos eram escravizados dessa família senhorial pelotense. A figura de Justo emerge no final do século XIX e início do século XX como uma importante liderança operária e política na cidade. Em um contexto de violências associadas à escravidão e ao racismo, ele reorganizou seu território e consolidou a resistência através da luta operária. Justo teve dois irmãos: Anselmo e Pio. Delfina, sua mãe, fora libertada em 1866 após a avó de Justo ter pago a quantia de 1:500$ mil réis a então senhora Dona Balbina Maria Chaves Silveira, filha do proprietário Amaro José de Ávila Silveira. A avó de Justo se chamava Balbina, uma mulher preta e liberta. O papel desempenhando por sua avó reafirma o papel das mulheres negras na construção de narrativas alternativas à história oficial, enquanto sua atuação demonstra como alforriadas expandiram possibilidades econômicas com o intuito de libertar parentes do jugo da escravidão. A luta de Justo era semelhante à de sua ancestral, avó Balbina. Lutava pela abolição da escravidão em diferentes associações negras em Pelotas e por melhores condições de vida de operários e artesãos na República. Justo adiciona ao seu nome José do Pacífico quando contrai matrimônio na catedral da cidade, São Francisco de Paula, em abril de 1882, Maria Joana, escravizada do Major José Dias de Castro. Na ocasião Justo José do Pacífico ainda era escravizado de Dona Balbina Maria Chaves Silveira. No assento do casamento de Justo e de Maria Joana há o reconhecimento de seus três filhos como legítimos que se chamavam: Artur, Pio e Delfina. Justo era sapateiro e conseguiu a liberdade do cativeiro pelo Fundo de Emancipação do munícipio pelotense. Aliás, ele e sua esposa Maria Joana foram libertados em 1884, uma vez que o Fundo de Emancipação priorizava dar a liberdade aos escravizados casados. Antes mesmo de ser libertado em uma cerimônia pelo Clube Abolicionista na localidade, ele lutava em prol da abolição da escravidão, atuando como presidente da Associação Lotérica Feliz Esperança em 1881, sendo reeleito em 1882. Participou ativamente na Comissão Coordenadora do Centro Ethiópico no ano de 1884, e se fez presente na diretoria da entidade dos artesãos negros da sociedade pelotense, a então Fraternidade Artística, permanecendo nesta entidade até 1898, como vice-presidente. Em 1888, participou do Centro Cooperador, uma associação de donos de oficinas de sapatos em que os participantes eram brancos e negros. E posteriormente atuou na formação da Liga Operária na cidade. É notório destacar que, após a conquista da liberdade pelo Fundo de Emancipação do munícipio, ele passou a frequentar as aulas noturnas para homens livres e operários ofertadas na Biblioteca Pública Pelotense em 1890, buscando letramento e oportunidades melhores para si e para seus companheiros da classe operária. Afinal, dominar códigos de escrita e leitura pertencia ao mundo da liberdade para homens brancos em uma sociedade racializada no final do século XIX. Nascido escravizado, de origem pobre e preto, o acesso ao mundo das letras nas aulas noturnas da Biblioteca Pública Pelotense, pudesse ofertar a ele a possibilidade de transitar por espaços diversos, mesmo em uma sociedade na qual a cor era um estigma enquanto identidade, uma exclusão naturalizada. Em 1900 há um registro seu em um episódio de participação eleitoral, em que Justo aparece com 56 anos, casado, artista e tendo o nome do seu pai presente, Delphino do Pacífico. Justo José do Pacífico nasceu escravizado, adentrou ao mundo da liberdade, casou-se com Maria Joana, constituiu família, lutou pelo fim da escravidão e por melhores condições de vida e sobrevivência da classe operária negra em Pelotas. A escravidão não figura como eixo central da experiência desse homem negro, pois a vivência dele transcendeu esse infortúnio por intermédio da resistência como militante de associações negras e operárias em oposição à marginalização imposta por uma sociedade racista na sociedade pelotense.
Referências:
GILL, Lorena Almeida; KOSCHIER, Paulo Luiz Crisel. A família Santos e outros escritos: escravidão e pós-abolição ao sul do Brasil. São Leopoldo: Casa Leiria, 2019.
PINTO, Natália Garcia. Gerações de senzala, gerações de liberdade: experiências de liberdade em Pelotas/RS, 1850/1888. Tese de Doutorado. Porto Alegre: PPGH UFRGS, 2018.
Natália Garcia Pinto