Data de nascimento: não se sabe

Data da morte: não se sabe

Mulher negra, do sul do Brasil

Josepha Campos viveu grande parte de sua vida como mulher escravizada na cidade de Pelotas no século XIX. Foi escravizada na casa do senhor Zeferino Campos, onde trabalhava com o ofício de lavadeira. A vida e trajetória de Josepha de Campos representa a história de tantas outras mulheres negras por liberdade e contra as injustiças e violências do mundo da escravidão no século XIX no país. Em um contexto final da escravidão brasileira, Josepha Campos, em 1881 por uma estratégia ousada apostou em um bilhete da Loteria Federal e acabou sendo comtemplada com um prêmio em dinheiro que lhe garantiu a compra do papel da liberdade. Entretanto, esse dinheiro conquistado proporcionou muito mais do que a sua carta de manumissão, mas a oportunidade de um projeto gestado por essa mulher negra de libertar seus afetos, sua filha e seus amigos de infortúnio do cativeiro. Ela contraiu matrimônio com João Tupaverava, em 1881, um africano. Importante salientar que Josepha não nascera na sociedade escravista de Pelotas, mas na Província da Bahia, de onde viera ainda criança. A luta e o empenho dessa mulher negra em libertar seus familiares e amigos esboça uma das múltiplas frentes de luta feminina no século XIX, em que a agência/resistência de mulheres escravizadas em prol de projetos de emancipação. Josepha teve uma filha chamada Esperança, que fora vendida por seu ex-proprietário a Manoel Pereira Batista. Quando Esperança foi libertada no ano de 1881, tinha 19 anos. É provável que mãe e filha tenham vivido separadas uma boa tarde da vida. Todavia o prêmio conquistado por Josepha lhe proporcionou a possibilidade de trazer para perto de si, sua Esperança, para que ela pudesse lhe ofertar os carinhos de mãe. Infelizmente após 2 anos, em 1883, Esperança falece. A trajetória peculiar de Josepha Campos elucida projetos autônomos de liberdade de afetos e familiares, o direito de exercer a maternidade, utilizando brechas e estratégias (compra de um bilhete de loteria) de modificar a sua vida e de tantos outros parceiros que também experienciaram a escravidão. Projetos esses ousados, pois moldavam outra norma de vida que não a imposta pela sociedade branca e racista da época. Seus atos de resistência e resiliência evidenciam como as relações de gênero, família, maternidade e liberdade eram constantemente ressignificadas por mulheres racializadas na escravidão no século XIX.

Referência:

LONER, Beatriz. A Loteria do Ipiranga e os trabalhadores: um sonho de liberdade no final do século XIX. História (São Paulo) v. 33, n.1, p. 195-233, jan/jun., 2014.

Natália Garcia Pinto